31 de outubro 2014
 
 

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Assistencialismo ou sensacionalismo?
Em entrevista exclusiva, José Eduardo, apresentador do programa "Se liga Bocão", diz que faz assistência social.

Por Pedro Albuquerque e Luciana Fialho

Aos 38 anos e conhecido por seu estilo próprio, o comunicador José Eduardo Figueiredo Alves, mais popularmente conhecido como Bocão, é um fenômeno da mídia baiana, considerado pelo Ibope campeão na preferência do público em seu horário. Apresentando o “Se liga Bocão”, programa que vai ao ar de segunda a sexta-feira na TV Itapoan, o comunicador desdobra-se
nas funções de apresentador, editor-chefe e produtor.
Tratado como aproveitador por uns e “santo” pelos fãs, José Eduardo é daqueles profissionais que vivem para o trabalho. Todos os dias é recepcionado por uma multidão de necessitados que pedem favores de todos os tipos. Em meio aos telefonemas incessantes de repórteres e produtores, às entradas e saídas de funcionários e, principalmente, aos pedidos do público fiel, o apresentador nos concedeu uma entrevista franca, descontraída e preenchida de ironia e experiência profissional.

"É assim que funciona: mostrar
a vida do povo com palhaçadas,
com repórteres atuando como
personagens, mas tudo
vem ancorado no social.
"
Foto: Divulgação

Em 2008, você completa 20 anos de carreira atuando na área televisiva. Conte-nos como foi sua trajetória profissional.

Bocão – Bem, estudei em muitos colégios, era um péssimo aluno... Só queria saber de surfar. Passei no vestibular para o curso de Educação Física e, da faculdade, eu ia direto pra rádio, onde falava sobre surfe num programa de esportes. Na verdade, comecei trabalhando com rádio, na Itaparica, e numa empresa, como office-boy. Eu tinha 17 anos. Não dava pra conciliar o horário. E como chegava sempre atrasado... A empresa me demitiu (risos).

 

E como você foi parar na TV?

Bocão: Foi o Varella quem me trouxe para a TV, em 1988. Aqui mesmo, na TV Itapoan. Eu tinha dezoito anos de idade na época. Fiquei de 1988 a 1992. Depois a TV Bahia me chamou e eu fiquei lá quase nove anos.

 

Como surgiu o apelido que dá nome ao seu programa?

Bocão: Quando saí da TV Bahia, em 2000, fui fazer assessoria de imprensa para o músico Ricardo Chaves. Decidi, então, fazer rádio, e fui chamado para a Transamérica. Na época, toda a rede tinha um programa “Se Liga”, na Paraíba, Recife, tinha Se Liga alguma coisa..., em São Paulo tinha “Se Liga Transamérica” e aqui tinha que ter um “Se Liga” alguma coisa. Como eu queria fazer um programa de entretenimento dos bastidores do axé, Eduardo Ramos (produtor do Asa de Águia) sugeriu: “Rapaz, é um programa de entretenimento, então coloca Se Liga Bocão!”. Eu perguntei: “Vai botar Bocão só, né?”, e ele: “Não, coloca Se Liga Bocão!”. Pegou porque a Rádio Transamérica tinha que completar o Se Liga, então colocou o Se Liga Bocão. Tanto que a marca “Bocão” é do Asa de Águia.

 

Você aproveitou “esse Bocão” para colocar a boca no mundo?

Bocão: No início não, mas hoje sim. Lá na Transamérica, eu não fazia esse tipo de programa. Passei quatro anos lá. Quando eu fui para A Tarde, que era uma rádio popular, pesada, começaram a chegar algumas denúncias, broncas de faculdade, de feira, de ponto de ônibus, de polícia, disso e daquilo. O programa deixou de ser daquela linha da Transamérica, que era classe A e B, universitária, pra cair mesmo no povão. Eu me identifiquei muito mais nessa linha do que na linha da Transamérica, mas eu “chuto” com as duas. Se precisar fazer pra ganhar dinheiro com A e B eu vou fazer!

 

E agora, depois dessa trajetória, você identifica influências profissionais que te marcaram? Algum nome em especial, com estilo parecido com o seu?

Carla Peres e José Eduardo
num estúdio de rádio.
Foto: blog da cantora

Bocão: Não... Na realidade, descobri que tinha essa veia popular quando fui pra rádio 104. Até então, na TV Bahia, era um formato completamente diferente, engessado, eu era repórter de esporte. Fazia matéria para a Globo. Quando saí da TV Bahia, descobri o rádio, fui começando a me soltar. O rádio solta muito, você acaba levando isso pra TV. Rádio é a melhor escola. No rádio, você está com o microfone, é você e Deus. Você pega ligeiro. Claro que, nos primeiros dias, você se prende, não quer falar, mas depois você vai embora. Isso facilita quando você vai pra televisão.


Você acabou indo pra um lado mais social, apesar de continuar no esporte. Como surgiu a idéia de infiltrar o social no seu programa?

Bocão: Quando fui pra TV. Recebi o convite da TV Aratu e comecei a fazer brincadeiras. Isso foi em (pensativo) 2006. Não tenho muitas lembranças de lá. Sei que tive o Bom Dia Bocão, que era de manhã, e, depois, o “Se liga Bocão”, que era ao meio-dia. Criei e comecei a fazer a promoção “Bocão na minha casa”. Para essa promoção, arrumei um parceiro. Rendeu pra cacete! O que o povo mais quer hoje é telhado, areia, cimento e “broco” pra fazer a casa. O povo só quer isso. E saúde, né? Mas não sou médico. Eu sei que o Ibope vinha em cima disso aí. Disso e de intriga de vizinho. O povo gosta da vida dos outros. O que é o Big Brother, que dá 52 pontos? É vida dos outros! É assim que funciona: mostrar a vida do povo com as palhaçadas, com repórteres atuando como personagens, mas tudo vem ancorado no social. Se perder o social, perco o meu programa.

 

Com esse formato, seu programa acaba virando alvo de críticas pesadas. Como você o define? É sensacionalista?

Bocão: Eu o defino como um programa de assistencialismo social. Não de sensacionalismo. Engraçado... Quando faço esse programa chamado de “sensacionalista” e me criticam, por que a pessoa que faz a crítica não deixa uma cesta básica aqui? Por que ela não faz isso sem aparecer na TV? E se eu não fizer por aquela mulher que veio aqui, que quer conhecer a mãe, que quer embarcar pra São Paulo, que dormiu aqui na portaria, quem vai fazer?

 

Agora você tem usado o jargão “Vamos lapiar”, que é a premiação em dinheiro. Você acha, realmente, que esse dinheiro seria a solução para auxiliar os menos favorecidos?

Bocão: Não, mas ameniza. Imagine você fazendo isso. Eu já fiz com 56 famílias, recebendo R$ 700. Alguém pode dizer: “Ah é pouco”. Pode até ser, mas resolveu o problema delas de alguma forma. O pior é não fazer nada.

Na TV com Xandy. Foto: Divulgação

 

Qual a certeza que você tem de que esse dinheiro não vai ser utilizado de forma indevida como, por exemplo, com drogas?

Bocão: Tenho certeza que 98% não são usados pra droga. Nós analisamos a pessoa que pediu, onde e como vive. Depois vou lá, na casa dessas pessoas. Eu confiro tudo.

 

O “vamos lapiar” é uma tática na guerra por Ibope?

Bocão: Eu quero que vocês vejam uma coisa. (Nesse momento ele nos leva ao seu computador, onde nos mostra o resultado do Ibope de quarta feira – dia 27 de fevereiro. “Se liga Bocão” em primeiro, com 27 pontos, “Globo esporte” em segundo, com 13 pontos, seguidos por “Que venha o povo”, com 5 pontos e, por fim, Band News, com 1 ponto). Por isso eu digo que o Ibope é uma cocaína, você tá todo dia 5 horas da tarde esperando o Ibope chegar. Uma cachaça, você fica viciado. Então a gente se concentra nisso porque os anunciantes vão nesse ponto. Abriu, viu ali 27 pontos, ele pergunta: “Quem é esse cara? Vamos anunciar ali”. Não precisa nem o contato sair daqui. O dinheiro chega aqui na porta. Então isso (o Ibope) significa dinheiro, dinheiro significa casa e casa significa alegria pra todos nós, já que eu tenho um percentual do programa. Então o ibope é dinheiro, é guerra. Só que tem um limite. Não pode descer a ladeira, tem que manter o tempo todo. Não pode descer. Tem que ter cuidado pra você não se perder.

 

Equipe: Como se deu o processo de mudança da TV Aratu para a TV Itapoan?

Bocão: Eu já tinha um processo de mudança pra cá há um ano e meio. Aí o dinheiro falou mais alto. A gente sentou pra conversar. Lá na Aratu, algumas pessoas não gostaram, né? Quem eu não trouxe, ficou zangado.

 

Na TV Aratu, você tinha um diretor que decidia qual matéria ia pro ar...

Bocão: Nunca decidiram nada. Quem decidia tudo ali era eu. Aqui na Itapoan é a mesma coisa. Quem vive, quem faz o programa todo sou eu.

 

É um diferencial seu?

Bocão: É, porque eu tenho que viver o programa. Se eu não viver o programa, não vai. Tenho que ver a cena. Aqui ó, (abre o e-mail) tem e-mail sobre tudo. Esse aqui me confudiu, está pedindo pra eu dar cartão vermelho, mas não sou eu que dou cartão vermelho (risos). A de cá está pedindo um book fotográfico. Essa outra é do interior e está pedindo a passagem para participar do quadro da garota créu...

 

O quadro da garota creu é apelativo?

Bocão: É, mas Luciano Huck faz e ninguém reclama. Não faz com esse nome, mas é só olhar os quadros dele que logo dá pra ver a semelhança.

 

Se você pudesse apontar o maior diferencial do “Se Liga Bocão” para os demais programas de “assistencialismo social” que disputam a audiência no horário, qual seria?

Bocão: A expressão do comunicador. Quando você tira daqui (aponta para o coração) e bota  para fora, o cara sabe que é verdade. E quando ele acredita que é verdade... Esqueça. É aquele ali que ele vai todo dia ligar pra assistir

 

É essa sua relação com o público que você considera a sua missão na sociedade. Sua responsabilidade social...

Bocão: Sim. E agora essa responsabilidade será maior. Eu vou pra Rádio Sociedade todos os dias às oito horas da manhã. Segunda feira começa. Vou pra Rádio Sociedade, de oito às nove, depois venho aqui pra tv Itapoan, depois, de seis às sete, Transamérica. E depois, de oito às dez, Transamérica futebol. Vou dormir meia noite.

 

E a vida pessoal de Zé Eduardo, como fica?

Bocão: Sexta eu não trabalho na Rádio Transamérica, aí folgo e “me pico”. De sexta pra domingo vou pra linha verde ou ilha. Esqueço o mundo.

 

Você tem filhos?

Bocão: Tenho dois filhos, uma é Vitória, 10 anos, o outro é Dudu, 3 anos, que tem o meu nome.  

 

"A classe A sacaneia, bota
apelido, olha com aquele
olhar de escroto..
."
Foto: Divulgação 

E a relação deles com a sua fama? Eles cobram sua presença?

Bocão: Não. A menina, a Vitória, fica assustada. Uma vez eu fui com ela fazer um passeio de lancha. Resolvi encostar pertinho da areia. Aí o povo viu e começou a nadar pra cima da lancha: “José Eduardo, me salve, minha mulher está assim” e tal. Mas vinham pra mais de quinhentas pessoas. Imagine, dia de domingo, uma hora da tarde, na praia do Cantagalo. Meu filho começou a dar risada pra cacete, porque já está acostumado. Só que ela, quando viu aquilo, pensou que o povo vinha pra me levar. Ela entrou completamente em pânico. Não está acostumada.

 

Como você faz pra andar nas ruas?

Bocão: Não ando. Não posso mais andar nas ruas. Com o povo  é melhor do que com a classe A. O povo entende, brinca, dá risada, me abraça, chora e tal. A classe A sacaneia, bota apelido, olha com aquele olhar de escroto. Prefiro evitar. Nem saio. É só da TV pra rádio, da rádio pra casa.

 

Existe algum projeto político para a sua vida?

Bocão: Não. Eu não vou conseguir, não. Vou deixar pra Varella aí (risos).

 

Nenhuma possibilidade do Bocão entrar para a política?

Bocão: Zero. Quer dizer, não sei, né? O amanhã...

 

Há momentos em seu programa em que são mostradas matérias violentas, de uma realidade triste da sociedade brasileira. Como você reage vendo esses tipos de matéria todos os dias?

Bocão: Vejo muito pouco, não costumo ver esses tipos de matéria. O que me choca mais é quando eu vejo uma briga dessas em que o cara briga com a mulher (matéria que foi ao ar no dia da entrevista), a mulher grávida de dois meses... Eu tenho certeza que vou ficar mal o resto do dia.

 

De onde vêm as idéias de pauta do seu programa? Como surge a idéia de abordar determinados temas?

Bocão: A maioria vem da internet (mostra seu e-mail com cerca de dez mil mensagens). Aqui no meu eu recebo tudo, críticas, denúncias, sugestão de pauta. Quando vem a informação, se for interessante, confiro; se for verdade, mando gravar. Sempre respondo. É computador que me pedem, dinheiro...

 

Pra finalizar, o que você espera do seu futuro profissional? Se tornar um novo Silvio Santos? No estilo “Quem quer dinheiro”?

Bocão: Não. Penso em parar. Daqui a uns 10 anos penso em parar. Ter um horário pra mim numa rádio, de noite, e pronto. Acabou a conversa. Hoje eu sou hipertenso graças a esse tipo de programa. Tenho 38 anos, não quero morrer por causa disso, não. É muito estresse fazer o que faço (nessa hora, os produtores do programa o chamam para a apresentação). É, agora tenho que ir. Vamos Lapiar (risos).

 


Ficha Técnica

Conteúdo produzido por estudantes do 3º semestre, em 2008.1, para a disciplina Redação III sob orientação do(a) professor (a) Lilian Reichert





 
[...]Perguntas muito bem elaboradas, gostei da entrevista, rica em detalhes.parabéns, nota 10 | Robson Lopes